10.6.17

Meu bloco de montar perdeu o encaixe

Eu demorei muito tempo para me sentir bem sozinha. Ficava incomodada quando as pessoas diziam que eu era antissocial (uma definição equivocada, pois o certo seria dizer que sou introvertida, mas tudo bem) ou que minha vida era muito sem graça. Parece que se você não vive rodeado de amigos, se não sai todos os finais de semana, se não posta fotos na balada ou se não tem um namorado, deve haver algo muito errado com você. 

Não vou dizer que não sinto falta de ter contato com as pessoas, sim, eu sinto. Tem dias que eu queria sair, tomar um café, conversar além do trivial, descobrir uma coisa nova. Acontece que, há muito tempo, eu tenho a sensação de que não me encaixo mais entre as pessoas que eu conhecia. 

Logo depois que me formei, por exemplo, eu estava desempregada e começando a ficar desanimada com isso, então aceitei ir num bar com uns colegas que eram da minha turma. Eu queria jogar conversa fora, dar umas risadas e esquecer meus problemas um pouco, sabe? Só que, praticamente todo o tempo que fiquei lá sentada, me senti um peixe fora d'água. Eles faziam piadas entre sim, comentavam sobre o trabalho, sobre as pessoas do trabalho, tinham uma porção de assuntos novos e diferentes. Resumindo: a companhia deles não fazia mais sentido para mim. 

Quando me casei, os assuntos de gente solteira não me interessavam mais, quase tudo terminava soando infantil e bobo demais para mim. Quem se importa se João está enrolando Maria ou se Pedro deu um fora em Josefa, se eu tenho contas para pagar e problemas domésticos para administrar? A solução era apenas ouvir, balançar a cabeça, dar um sorriso e pronto. 

Nem mesmo com o então marido eu tinha abertura para discutir coisas que eu gostava, como o último livro de fulano ou o filme de sicrano que passou no festival tal, porque infelizmente eu aceitei rápido demais me casar e só depois descobri que a gente não era compatível. (Algo que pretendo nunca mais repetir; se for para me casar de novo, que seja com alguém que tenha interesses em comum e desejos bem parecidos com os meus).

Quando fiquei solteira novamente, a sensação de desencaixe foi pior ainda. Primeiro porque passei vários meses trancada em casa, num estado lamentável de depressão e morrendo de medo e vergonha do julgamento alheio. Segundo porque todo o desgaste que sofri mudou tantas coisas em mim, que me tornei bem seletiva em relação às pessoas que eu queria por perto. Terceiro porque a maioria das pessoas que eu conhecia estavam namorando sério, se casando ou casadas, curtindo o primeiro filho ou morando fora. E quarto, porque eu decidi estudar para concursos públicos, o que ocupa boa parte da minha vida e das minhas conversas.

Hoje o grosso da minha vida social se resume a conversar com outros concurseiros. Não estou reclamando, afinal, existe muito incentivo nos dias de maré baixa e certas coisas somente outro concurseiro teria paciência para ouvir. Mas é que de vez em quando, como eu disse, faz falta uma conversa diferente. Faz falta uma saída distraída, uma relaxada na rotina, uma renovação de ares. Faz falta algo que não envolva edital, revisões, doutrina, jurisprudência, banca examinadora ou lei de sei lá o quê. 

Apenas faz falta uma turma nova para me encaixar.


3 comentários:

  1. Oi! Achei seu blog por acaso, se eu não me engano foi num desses blogrolls que a gente não faz ideia de como chegou, mas no final das contas agradece por ter encontrado. bacana demais o blog. adicionei aqui na minha lista, espero que não se importe. costumo dizer que a solidão é uma parente chata que insiste em visitar a casa da gente sem avisar e nas horas mais impróprias. todo mundo passa por isso alguma hora da vida: fato. entendo perfeitamente seu sentimento de peixe fora d'água porque também sou mestre em colecionar situações do gênero. não me considero tímido ou introvertido, mas acho que me entedio fácil hehe. parabéns pelo blog!

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  2. Oi Marcelo, obrigada! Sinta-se em casa :)

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  3. Grato pela hospitalidade! é recíproca.

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Olar :)