30.8.17

Salsicha, ovos e vinho

Não me peça para dizer nada. Não sei o que há comigo hoje. Apenas vem esse vazio, essa falta de vontade de fazer qualquer coisa. Sei lá. Não foi aquele vinho que a gente comprou de promoção naquele supermercado. Ele tinha um gosto ruim, descia parecendo lixa de parede, mas não foi isso. Sei que não foi isso. Nem foi aquele travesseiro amarelo e fedorento, com manchas de suor alheias. Nem o lençol furado nem o colchão castigado por metidas de quatro e o peso de barrigas cheias de merda. 

Também não tinha nada a ver com o quarto fodido de hotel em que estávamos. Não ligo para o assoalho quebrado, as aranhas gordas penduradas em suas teias olhando para nós, para as janelas emperradas e seus vidros trincados. Também não ligo para o chuveiro sujo, a água barrenta, nem o pó sobre os móveis. Pouco me importa a televisão com palha de aço na antena, os canais sem cores ou o botão do volume todo enfiado para dentro. 

Não sei. Não é nada disso. É aqui dentro. É o meu coração. Veja bem, gosto dos seus centímetros. Perco totalmente a consciência em cima deles. Mas quando caio lerda na cama, suando e morrendo de calor, o que sobra? Só o seu cheiro e a cama amarrotada. Nada em mim. Nada no meu coração. Amor nenhum para dar. Nunca disse que o amo. Porque realmente não o amo e acho difícil que isso aconteça. 

Levo muito tempo para me apaixonar. Acho mais fácil te dar o meu corpo. Distrair seus desejos entre balanços e galopes que dar um passo à frente e colocar meu coração na frente da insegurança. Aquelas palavras lá doeram. Já viu como é um coração partido? Ele se parte mesmo, cara. Você sente. É uma dor absurda. Você tenta segurar, apertar, mas o negócio é lá dentro. 

Olho para você nesse sofá rasgado. Tão bonito, tão homem, tão sem medo das coisas. Alguém sempre me dizia que as pessoas legais aparecem na hora errada. Não acho que você veio na hora errada. Talvez algumas coisas na hora errada. Talvez umas ideias erradas e outras brigando para se tornarem certas. 

Quer saber? Não sei. Cansei de pensar. Amor dá trabalho. Machuca. Se acaba. Melhor essa sua salsicha alemã com ovos. E me passe essa merda de vinho para cá. Pode ser no copo sujo mesmo. Não ligo pra merda de mosca nem cu de barata.


Um comentário:

  1. Sim, amor dá um trabalhão. E como machuca!

    Textão!!!

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Olar :)