14.12.17

Fodas, velhas leituras e fantasias nunca alcançadas

“Embora meu objetivo seja compreender o amor, e embora sofra por causa das pessoas a quem entreguei meu coração, vejo que aqueles que me tocaram a alma não conseguiram despertar meu corpo, e aqueles que tocaram meu corpo não conseguiram atingir minha alma.”
“Eu não sou um corpo que tem uma alma, sou uma alma que tem uma parte visível chamada corpo.”
Onze minutos, Paulo Coelho

Ainda tenho curiosidade em saber como é a sensação de ser tocada de verdade. De estar com alguém que saiba conversar e me seduzir com palavras, antes de partir para o tato. Alguém que me beije devagar; que mordisque meu pescoço sem a intenção de arrancá-lo; que me encaixe num abraço apertado; que sussurre coisas provocativas, mas não nojentas, no meu ouvido; que sinta o desenho da minha cintura; que não aperte os meus peitos como se eles fossem brinquedos de borracha; que saiba que tenho 1,70 m de pele para sentir e percorrer, antes de chegar ao ponto principal; e que entenda que está ao lado de uma mulher com coração, desejos e medos, cujo corpo deve ser respeitado.

Quando penso nessas coisas, me lembro do quanto me identifiquei com as frustrações de Maria, personagem principal de “Onze Minutos”, do Paulo Coelho. Não sei quantos anos eu tinha quando li esse livro, acho que no início do ensino médio ou no cursinho antes de entrar na universidade, mas o fato é que desde aquela época tenho o mesmo desejo de ser explorada com calma e excitada ao máximo. 

Uma coisa que não me envergonho de dizer é que, nesse sentido, experimentei amassos que foram muito melhores do que sexo, pois sem os finalmentes tinha que existir criatividade para manter o desejo. Lembro muito bem de um cara que me convidou para tomar um café e enquanto ele brincava de ir sentando cada vez mais perto, eu tremia toda de tesão. Também me lembro bem de um cara novinho que eu fiquei num show. A pegada da criatura era tão boa, tão firme, tão decidida, que até perguntei se ele era padeiro.

Por outro lado, em certos encontros que envolviam algo mais, onde havia tempo e lugar para esquecer do mundo, as coisas geralmente eram previsíveis e mecânicas. Há sempre aquele cara apressado, que acha que as mulheres são meros buracos de concreto e cujo pau parece mais uma britadeira; aquele cara que até perde uns minutinhos nas preliminares, mas parece um gato lambendo o leite da tigela ou um esfomeado chupando manga; aquele que só fala besteira e fica endeusando o pau; e aquele cara que só pensa no prazer dele e só faz o que for bom para ele. 

Dificilmente existe aquele cara que sabe que o corpo de uma mulher é muito mais que uma buceta. Um desses é artigo tão raro que nunca esqueci da Maria do Paulo Coelho. Nem de uma cena descrita lá pela página cento e cinquenta, e que desde então, se tornou uma espécie de fantasia para mim.

"Ele se entrega, coloca a venda. Ela faz o mesmo; agora já não há fresta de luz, estão no verdadeiro escuro, um precisa da mão do outro para chegar até a cama. Não, não devemos nos deitar. Vamos nos sentar como sempre fizemos, frente a frente, só que um pouco mais perto, de modo que meus joelhos toquem os seus joelhos. Sempre quis fazer isso. Mas nunca tinha o que precisava: tempo." 
"Estende o braço em sua direção, e pede que ele faça o mesmo. Sussurra poucas palavras, dizendo que aquela noite, naquele lugar de ninguém, gostaria que ele descobrisse sua pele, a fronteira entre ela e o mundo. Pede que a toque, que a sinta com suas mãos, porque os corpos se entendem, embora nem sempre as almas estejam de acordo."

6 comentários:

  1. Que textão da porra, Lari!!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA amei, inclusive favoritei aqui no meu pocket <3

    Isso que você fala que tem muitos caras que fazem o mínimo necessário para conseguirem o que querem é muito real. Eles não tem paciência pra sentir as curvas, beijar o corpo, endeusá-lo e fazer você se sentir amada, mas olha, não perca as esperanças porque vai aparecer alguém pra beijar aquela parte do seu corpo que você internamente não gosta e daí você vai ver que existem pessoas que querem fazer uma conexão além da pele. <3

    Amei os trechos. Adoro Paulo Coelho!!


    Beijos <3

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    1. Muito feliz com o seu elogio!!! Fiquei com receio de publicar o texto e parecer que sou uma tarada, mas acredito que esse negócio de empoderamento abrange tudo, né? Vamos exigir nossos direitos na cama também!

      Cultivo essa fantasia há muitos anos e espero mesmo um dia encontrar alguém que aceite realizá-la. Amaria bastante um cara beijando minhas gordurinhas ❤️

      Xero, Larie!!

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  2. Seu texto me impactou de uma forma que eu nem esperava ser possível, e te agradeço por tê-lo escrito para que eu pudesse me sentir "encontrada" com ele -- e por mais que o assunto seja triste, é sempre bom saber que você não é a única a se sentir de tal forma, não é mesmo?

    P.S: Li seu comentário em um post meu (que não sei nem se você vai se lembrar, do tempo que faz), sobre minha vida com ansiedade, e seu comentário nele me deixou com um quentinho no coração do qual eu precisava. Também tenho muita dificuldade para dizer pras pessoas que tomo remédios, e que preciso sim de ajuda, porque não, a minha ansiedade não é como a deles e o que acontece dentro de mim é destruidor. Quando tive ~a conversa~ com meus amigos para dizer que eu precisava daquele momento pra mim, que nada do que eu fazia com eles era por maldade, e até o dia em que comentei naturalmente ter passado uma noite em claro por causa de uma crise os olhares que me dirigiram doeram pela pena que expressavam, como se eu fosse anormal, uma coitada. Como ambas estamos estudando sob pressão e conciliando com a TAG, só te desejo dias bons, em que sua mente seja sua melhor amiga e tudo saia da forma como deve, porque sei como isso acaba com a gente e como aquela voz lá dentro que te aponta todos os erros é horrível. Espero que um dia seja melhor que o outro, e que os novos laços que você quer encontrar de fato aconteçam. Obrigada por aquele comentário, obrigada por ter sido a primeira pessoa que não demonstrou pena ao me responder sobre isso. <3

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

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    1. Oi, Tati!! Ansiedade era um assunto que me incomodava e eu tinha muita vergonha de falar sobre. Mas se a gente não começar a se abrir, assumir que "sim, eu tenho ansiedade, e daí?", outras pessoas vão continuar se isolando e escondendo os seus problemas.

      Eu lembro do comentário e você não imagina como fico contente por ter te ajudado, mesmo que tenha sido só com algumas palavras!! É bem difícil viver com algo que suga nossa energia e praticamente controla a nossa vida. Espero que você esteja cada vez melhor e que os seus amigos aprendam que você não é uma coitadinha digna de pena por causa da TAG. Você é forte!! Nós somos todos fortes por suportar nossas dores sozinhos!!

      Beijos :)

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  3. "que até perguntei se ele era padeiro". Larissa, MORRI DE RIR de imaginar essa cena, hahaha. Espero que o guri tenha se tocado que foi um elogio, né?
    Felizmente, nunca me deparei com o tipinho egoísta, que acha que o dele é mais importante, mas já tive de aturar muito menino que não sabe o que está fazendo. O mais frustrante é saber que, em mutios casos, depende de química mesmo e, por mais que eu faça um tutorial no Youtube, não vai funcionar. Não vai encaixar, não vai ser satisfatório para nenhum dos dois.
    Li Paulo Coelho lá pela época do cursinho também e acabei pegando um preconceito literário bobo com o cara. Acho que está mais do que na hora de dar uma procurada no Skoob para ver se algum livro dele me apraza e eu tiro essa birra da minha cabeça.
    Beijos!

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    1. Eu li Paulo Coelho mais por curiosidade, queria saber se era tão ruim como diziam. Onze minutos foi o único livro dele que consegui ler e gostar. Não me identifiquei com ele, pois nunca me interessei em procurar os outros, inclusive os mais famosos.

      Que sorte a sua de nunca ter encontrado um homem egoísta! Tenho umas lembranças péssimas...

      Beijos, Kari!!

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