17.7.18

Ciclo vicioso dos desejos ressuscitados

“Estou com saudade de ter encontros de verdade. Daqueles em que você se arruma, revirando o guarda-roupa à procura da roupa perfeita, que escolhe com cuidado o perfume que vai usar e onde cada pequeno detalhe, como um brinco ou relógio, pode fazer diferença.”

Escrevi isso há oito anos, em um blog antigo, mas poderia ter sido hoje ou no mês passado. O sentimento é o mesmo. A saudade continua. Silenciosa, discreta, porém constante.

Eu quero outra vez sair de verdade. Eu quero a sensação de ser tão desejada que seja impossível segurar a pressa do corpo. Eu quero ser interessante para alguém. 

Eu quero esquecer as horas e dormir tarde porque a conversa estava boa. Eu quero me atrasar tomando um banho demorado, ficando com cheiro de framboesa e escolhendo a calcinha que vai ser tirada.

Eu quero ser lembrada no bom dia, no boa noite e no tédio do domingo. Eu quero fazer parte de uma rotina e entrar numa vida. Escutar as coisas boas e ajudar a carregar os problemas. 

Eu quero uma mão para segurar e apertar forte cada vez que sentir medo de alguém na rua. Eu quero ser notada nas minhas manias e detalhes. No meu jeito atrapalhado.

Estar sempre sozinha é algo que começou a me incomodar e não sei precisar em qual momento. Talvez quando eu te olhei com outros olhos, me lembrando que sim, era bom estar com alguém, e despertei o que estava esquecido no meu coração. Por baixo de traumas e medos.

Eu quero tudo isso de novo.

Eu quero me envolver, me deixar levar, sentir as borboletas amarelas de Amaranta Úrsula dançando no meu estômago. Eu quero me apaixonar, me entregar por inteira, sem culpas ou desculpas, mesmo sabendo que meu coração pode quebrar.

E se ele quebrar, aprendi que sou forte e posso sobreviver.

23.5.18

Diferenças contornáveis

Quando eu era mais nova, ficava me perguntando se um dia iria me juntar com alguém que compartilhasse os mesmos gostos. Infelizmente, como nada é simples nesta vida, na primeira vez que isso aconteceu convivi com alguém que, por exemplo, não tinha paciência para livros e livrarias, tampouco gostava que eu lesse enquanto ele estivesse em casa. Para mim, que não esperava um rompimento tão grande com as coisas que faziam parte da minha identidade, o tempo que durou essa relação foi um período de renúncias forçadas.

Hoje em dia, com espaço para ler quando eu quero, percebo o quanto é importante dividir a vida com alguém que seja parecido comigo, mas também percebo que esse é um conceito limitado. 

Veja bem, eu adoraria estar com alguém que me acompanhasse nas leituras ou que soubesse o nome dos meus escritores favoritos, mas me conformo com alguém que entenda que livros fazem parte de quem sou desde sempre. Também amaria dividir um café fresco ou experimentar um sabor diferente, mas me conformo com alguém que compreenda que preciso de cafeína para viver.

Não sei se cansei ou se evolui mentalmente, o fato é que parei de limitar meu envolvimento com as pessoas por causa de diferenças bobas.

Não faço mais questão de sair apenas com alguém que goste filmes de arte e séries europeias ou que entenda de enquadramentos, câmeras e tipos de lentes. Nem que entenda de gastronomia, nem de blogs, nem de plantar suculentas, nem de organização. Existem coisas que amo, mas que os outros não precisam amar de volta. Só precisam respeitar, assim como tenho que respeitar os interesses deles. 

Certa vez namorei um cara que achava que livros demais era bobagem. Por ele, era melhor que eu desse ou vendesse todo os meus livros já lidos. Eu achava que sofrer por um time e assistir todos os jogos era uma puta bobagem. Para ele, era algo importante. 

As pessoas costumam dizer que os opostos se atraem, no entanto, acredito que isso só funcione com os elétrons, porque viver com alguém completamente diferente não funciona. É desgastante, frustrante, solitário – principalmente para o lado que está sempre cedendo e abrindo mão das coisas que gosta por causa do outro. 

A questão é: existem diferenças que são contornáveis. Eu não dispensaria uma pessoa por ela ter um gosto musical diferente ou por ela não gostar de comida japonesa. Por ela gostar de comédia ou preferir dormir até tarde. Eu dispensaria se ela tivesse um estilo de vida incompatível com o meu. Se eu precisasse me anular para me encaixar no mundo dela. Se eu tivesse que deixar de ser quem sou.

O resto é aprendizado. E a oportunidade de ser surpreendida por alguém que, num primeiro momento, não parecia interessante. 

28.3.18

Eita

Que os dias têm sido atropelados. Que a rotina tem mudado e desmudado. Que me sinto sem tempo, desorganizada, precisando de uns instantes para cuidar de mim. 

Há dias uma pilha de papéis vagueia sobre a minha mesa, mudando de lugar conforme a necessidade. Da mesa para a cadeira, da cadeira para a cama, da cama para a mesa. 

Tenho perdido a hora de dormir. Tenho estragado as unhas. Tenho chegado tarde na academia. Tenho esquecido de hidratar o cabelo. Tenho acumulado matérias atrasadas e questões para responder. 

Minha caixa de entrada transborda. Minhas séries estão atrasadas. Meus resumos precisam ser passados a limpo. Meu sono não é suficiente. Leio três livros ao mesmo tempo e não termino nenhum.

No entanto, no meio de tanta bagunça, me esbarrei com a vontade de querer me permitir. 

Me permitir experimentar algo que nunca imaginei antes. Me permitir mais um passo fora da curva. Me permitir me envolver. E, principalmente, me permitir deixar você entrar na minha vida, seja lá por quanto tempo for.

A porta está aberta.