23.9.20

Pequenos acordos para salvar os dias

Durante uma conversa despretensiosa com Marcelo, alma pensante do Monocórdios e um desses amigos que a blogosfera me deu, comentei que a gente deveria escrever um texto até o final do mês. Quem sabe até dois, dependendo da nossa disposição.

Tanto tempo em casa e tenho me sentido acomodada, sedentária, deixando a vida para depois. Todos os dias digo para mim mesma que vou caminhar pelas ruas do bairro, mas acabo inventando desculpas e me convenço de que estou indisposta.

Às vezes abro meu arquivo de textos, penso numas ideias e logo em seguida desvio minha atenção para qualquer outra coisa que não seja forçar meu cérebro a escrever. Baixei um aplicativo de yoga na tentativa de alongar o corpo para aliviar as dores nas costas e, é claro, nunca fiz uma única posição.

Meu celular, pobre coitado, continua com a película quebrada porque tenho preguiça de ir numa loja comprar outra. Assim como outras coisas que preciso comprar, resolver, consertar, porém fico enrolando.

Fico nessa de esperar pela coragem, pela inspiração, por um empurrãozinho amigo para começar a fazer coisas que tenho vontade. Sei que essa sensação de preguiça e desconexão também está acontecendo com outras pessoas, algo perfeitamente normal num ano atípico como este. 

O que me incomoda nessa estagnação é a minha falta de energia para reagir. Por isso sinto falta de gente que me coloque para cima, que me incentive a melhorar e a sair desse sofá imaginário onde me afundei. E por isso esses pequenos acordos. Escrever um texto. Parar de me entupir de chocolate, como combinei com um outro amigo. Terminar minhas leituras dentro do prazo. 

Talvez seja apenas uma daquelas fases improdutivas no meio dessa montanha-russa chamada pandemia. O fato é que, para mim que sempre gostei de me sentir ativa, de cumprir tarefas, de me manter ocupada fazendo algo útil, não tem nada de "tudo bem" essa acomodação.

13.8.20

Silêncios necessários

Entre as paredes de casa, com um quintal cheio de plantas da minha mãe, com uns passarinhos que todo dia aparecem para comer xerém, com flores de buganvília brotando e suculentas crescendo aos montes, precisei reinventar meu tempo. 

Eu seguia numa vida dependente de mensagens no Whatsapp e gastava tempo demais entre curtidas e stories. Quando um dia abri por acaso minha atividade no Instagram, fiquei assustada com a quantidade de horas que eu passava ali. Era início da tarde e eu tinha perdido 3h47 minutos do meu dia visualizando bobagens.

(Dava para ler um livro curto, para fazer uma viagem de carro entre Aracaju e Maceió, para assistir Lawrence da Arábia, para fazer uma prova de concurso público, para descolorir o cabelo e pintar as luzes, para assar uns cinco bolos, para correr uma maratona).

Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Eu estava num nível de ansiedade alto. Pensava demais em comida e comia muita porcaria. Tinha pouca concentração para a leitura. Não conseguia terminar um filme sem me distrair abrindo o Instagram. Ficava checando se tinha recebido alguma mensagem.

Para completar, a decepção que eu tinha sofrido foi um fator decisivo para que eu desse um tempo das redes e começasse a gastar minha energia em outras coisas.

Avisei a umas poucas pessoas sobre o meu afastamento, desativei algumas notificações e então sumi. Longas semanas offline e respondendo somente as mensagens necessárias que foram chegando.

Nesse tempo baixei um aplicativo de idiomas e comecei a estudar francês, mergulhei nas leituras pendentes, vi filmes que estavam esquecidos na minha lista da Netflix, reduzi meu consumo de informações (principalmente sobre política), tive duas tentativas fracassadas de fazer levain, me distraí brincando de arquiteta no The Sims, escrevi com frequência num diário, li matérias sobre autocuidado e saúde mental, curti dias de ócio, diminuí o açúcar, mudei a decoração do quarto, cozinhei bastante.

Parece pouco, mas foi o suficiente para melhorar meu humor, para me sentir menos ansiosa e ociosa, para ter a certeza de que finalmente estava aproveitando esse tempo em casa com algo útil, em vez de só ficar abrindo e fechando aplicativos. Meu medo agora é me acostumar com essa liberdade de uma vida menos conectada.

16.7.20

Vai-e-vens

Apenas quando escrevo percebo o quanto tenho sido afetada pelo isolamento. Num período estou bem, inspirada e inventando coisas para fazer, no outro me sinto perdida num labirinto de tristeza e indisposição.

Verdade que nunca fui muito de sair e sempre tive poucos amigos. Minha rotina era simples, frequentava os mesmos lugares e basicamente passava meus fins de semana entre séries e livros. Mas, parando para pensar, nas duas grandes crises que tive ao longo desses meses isolada em casa, a causa foi praticamente a mesma – meus sentimentos por você.

Na angústia de ficar entre quatro paredes com a vida social parada, e sentindo falta de certos contatos com outros humanos, me apeguei ao mínimo de atenção que estava recebendo. O resultado? Coloquei vírgula, ponto e vírgula, travessão, reticências, ou qualquer outra pontuação, numa história que deveria ter sido encerrada na primeira frase sem reciprocidade.

Bom, de vez em quando acontece. Em momentos de vulnerabilidade cometo a besteira de ignorar minha intuição, em troca de migalhas afetivas, e esqueço todos os indícios que apontam para uma decepção futura. Me desrespeito por insistir, por dar novas chances, e acabo sofrendo por quem não me quer de verdade.

Talvez pelo desgaste emocional do distanciamento, dessa vez o tombo tenha sido mais dolorido. Talvez porque eu gostava de encontrar alento na companhia daquela sua foto pequenininha no topo das minhas conversas. Talvez porque eu estava inteiramente envolvida em (re)descobrir nossos gostos em comum e (re)criando expectativas. Ou talvez porque eu estava ficando apaixonada.

Não sei, não sei e não sei. No caos do mundo eu quis você para alegrar o meu.