16.7.20

Vai-e-vens

Apenas quando escrevo percebo o quanto tenho sido afetada pelo isolamento. Num período estou bem, inspirada e inventando coisas para fazer, no outro me sinto perdida num labirinto de tristeza e indisposição.

Verdade que nunca fui muito de sair e sempre tive poucos amigos. Minha rotina era simples, frequentava os mesmos lugares e basicamente passava meus fins de semana entre séries e livros. Mas, parando para pensar, nas duas grandes crises que tive ao longo desses meses isolada em casa, a causa foi praticamente a mesma – meus sentimentos por você.

Na angústia de ficar entre quatro paredes com a vida social parada, e sentindo falta de certos contatos com outros humanos, me apeguei ao mínimo de atenção que estava recebendo. O resultado? Coloquei vírgula, ponto e vírgula, travessão, reticências, ou qualquer outra pontuação, numa história que deveria ter sido encerrada na primeira frase sem reciprocidade.

Bom, de vez em quando acontece. Em momentos de vulnerabilidade cometo a besteira de ignorar minha intuição, em troca de migalhas afetivas, e esqueço todos os indícios que apontam para uma decepção futura. Me desrespeito por insistir, por dar novas chances, e acabo sofrendo por quem não me quer de verdade.

Talvez pelo desgaste emocional do distanciamento, dessa vez o tombo tenha sido mais dolorido. Talvez porque eu gostava de encontrar alento na companhia daquela sua foto pequenininha no topo das minhas conversas. Talvez porque eu estava inteiramente envolvida em redescobrir nossos gostos em comum e recriando expectativas. Ou talvez porque eu estava ficando apaixonada.

Não sei, não sei e não sei. No caos do mundo eu quis você para alegrar o meu.

27.6.20

Sobre dias mais ou menos

Sabe aqueles dias que você deseja alguém para te colocar no colo e dizer o quanto você é bonita? Desejada e amada? Uma pessoa incrível? Não é uma questão de falta de amor-próprio. Eu tenho. Conheço minha beleza e meu potencial. Aprendi a amar meu corpo, aceitar minhas particularidades, assumir meus defeitos.

Mas há esses dias que escapam. Esses dias de desânimo, tristeza e baixa autoestima.

Especialmente agora. Em tempos tão loucos e incertos.

Cada um dos que conheço está seguindo com sua rotina, reinventando passatempos, criando novas formas de encarar o tédio de uma vida isolada. Do meu lado, os dias seguem letárgicos, as conversas dentro de casa são comentários superficiais, nada de especial acontece, não há mensagens de afeto para aquecer o coração. 

Só me resta me recolher e silenciar. Duas palavras bonitas que traduzem meu cansaço da solidão.

13.6.20

Notas da quarentena

Me tornei uma testadora de tonalizantes porque isolamento social combina com cagadas capilares. Quer dizer, não fiz nenhuma maluquice como cortar uma franja ou raspar a lateral, mas errar o tom e sair do loiro para um quase preto foi uma mudança bem estranha.

Tenho vivido dias de ócio criativo e outros bem improdutivos. Às vezes me pergunto onde raios foi parar minha capacidade de escrever ou de ser mais ativa. 

Gostaria de dizer que tenho lido bastante, mas minha concentração não está das melhores. Me afundo em filmes e séries porque são mais fáceis de consumir e me distraem nos dias de tédio.

Ou construo e reconstruo cidades no SimCity, numa tentativa de pensar menos em comida. Aliás, semana passada li uma matéria sobre essa vontade exagerada de comer para aliviar o stress da pandemia.

E aqui chegamos em outro ponto: como segurar a onda sendo uma pessoa ansiosa em tempos de ansiedade coletiva. Diria que vivo numa espiral de faxinas frenéticas, saudades acumuladas, muito tempo gasto com redes sociais, desejos gastronômicos, tesão ora em alta ora em baixa, pensamentos constantes no futuro.

Quando isso? Quando aquilo? Quando nós poderemos?

Enquanto isso, sigo tentando fazer pequenas quebras na rotina, de vez em quando assando uns biscoitos, escrevendo listas de desejos, cuidando cada vez mais de mim e aproveitando para ficar mais próxima de pessoas que me fazem bem, apesar da distância.